¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, junho 18, 2013
 
BRASIL SE ORGULHA
DE SEUS VÂNDALOS,
DIZ DONA DILMA



Há jornalistas pretendendo apagar fogo com gasolina, escrevia eu ontem. Não bastassem os jornalistas, os políticos vieram dar sua contribuição ao alastramento da fogueira. Dona Dilma, querendo tirar o seu da reta, apressou-se em dizer que depredar ônibus, carros e bancos são manifestações pacíficas próprias da democracia.

“O Brasil hoje acordou mais forte. A grandeza das manifestações de ontem comprovam (o plural é dela) a energia da nossa democracia, a força da voz das ruas e o civismo da nossa população. É bom ver tantos jovens e adultos, o neto, o pais, o avô juntos com a bandeira do Brasil cantando o hino nacional, dizendo com orgulho ‘eu sou brasileiro’ e defendendo um país melhor. O Brasil tem orgulho deles”, disse a presidente.

Temos então que o Brasil se orgulha de seus baderneiros. Fernando Henrique Cardoso, que de seu glorioso climatério assiste de camarote os distúrbios de rua, perdeu uma ocasião única de ficar calado. Desqualificar os protestos dos jovens em São Paulo e outras capitais "como se fossem ação de baderneiros" constitui, na avaliação do ex-presidente, "um grave erro". Para ele, "dizer que essas manifestações são violentas é parcial e não resolve. É melhor entendê-las, perceber que essas manifestações decorrem da carestia, da má qualidade dos serviços públicos, das injustiças, da corrupção".

Enquanto dizia isso, os “jovens” arrombavam os portões do palácio Bandeirantes, onde governa seu companheiro de partido, Geraldo Alckmin. Agora só está faltando o governador vir a público para dizer que o arrombamento da porta do palácio Bandeirantes é uma manifestação legítima e própria da democracia – pensei com meus botões. O que não me espantaria se ocorresse.

Faltava. É que eu não havia lido os jornais. Alckmin, que na semana passada classificara os manifestantes como "vândalos" e "baderneiros", agora acode com panos quentes: "Queria fazer um elogio às lideranças do movimento e também à segurança pública e à Polícia Militar”. Para o governador, a primeira reunião com os utópicos desvairados do Movimento Passe Livre (MPL) foi positiva. "Foi uma reunião muito madura, muito proveitosa."

Ora, se um ex-presidente, a atual presidente e o governador de São Paulo aplaudem os “jovens”, se governo e oposição endossam a violência, que resta aos "jovens" fazer? No mínimo, invadir a prefeitura de São Paulo. Que é o que estão tentando fazer enquanto escrevo estas linhas. Até agora, cinco portas de vidro já foram destruídas. Os manifestantes – doravante chamados de radicais - picharam as paredes da prefeitura, quebraram vidros laterais do prédio, atearam fogo em um carro da Record, em uma cabine da PM e saquearam duas lojas.

Pelo jeito, temos agora os baderneiros do Mal (PSTU, PCO, Psol) e os baderneiros do Bem, os jovens sonhadores que consertarão o país impedindo o trânsito nas ruas. O projeto maluco do MPL, em verdade já foi do PT, quando a cândida Erundina era prefeita de São Paulo. O custo do passe livre seria repassado ao IPTU. Simples assim. Cria cuervos y te picarán los ojos – dizem os espanhóis. O projeto da petista se volta agora contra o PT.

Do dia para a noite, o que era uma reivindicação por 20 centavos transformou-se, em muito graças à benevolência da imprensa, em um projeto de salvação nacional. Segundo a Veja, “a data entra para os livros de história e deixa um rastro de interrogações. O cardápio de reivindicações dos manifestantes era amplo e difuso: mais investimentos na saúde, mais dinheiro na educação, transporte público barato, fim da corrupção, rejeição do projeto de emenda constitucional que retira poderes de investigação do Ministério Público – e ainda questões locais”.

As bandeiras se multiplicaram, desde a exigência da renúncia de Renan Calheiros e do pastor Feliciano à libertação da Palestina. Curiosamente – ou melhor, sintomaticamente – manifestante algum pediu punição para os mensaleiros. Quando as manifestações se transformam em projeto nacional, e quando a presidente manifesta seu orgulho pelo espírito patriótico dos baderneiros, alguns prefeitos – o de São Paulo, inclusive – falam em reduzir tarifas de transporte. A revolução retoma suas modestas pretensões.

Perguntinha a quem interessar possa: quando na história uma rebelião de jovens resultou em algo profícuo para uma nação? No fundo, trata-se de um défoulement – como dizem os franceses – que tem fases cíclicas. Ano que vem, com a Copa do Mundo, sem dúvida alguma teremos uma explosão de sonhos dos “jovens”.

O resultado final de todas essas depredações será zero. Quem pagará a conta será o país, com horas de trabalho perdidas e prédios e ônibus depredados. Mas, como diz a presidente, o Brasil tem orgulho de seus vândalos.

segunda-feira, junho 17, 2013
 
APAGANDO FOGO
COM GASOLINA



Que jovens cometam besteiras, nada de anormal. É típico dos jovens. Gosto de citar Roberto Arlt: “Com quem faremos a revolução? Com os jovens. São estúpidos e entusiastas”.

Antes de ir adiante, já vou anunciando a breve reedição de minha tradução de Os Sete Loucos, em versão eletrônica, como também a de Os Lança-chamas, que na verdade constituem um só livro. Quem viver, lerá. Volto aos jovens.

Alguém ainda lembra do Occupy Wall Street? Dos indignados de Madri? Dos incêndios e depredações em Londres? Se alguém ainda lembra, pergunto: resultaram em quê? Além dos prejuízos às prefeituras e particulares, o resultado foi redondamente zero. Que jovens cometam besteiras, dizia, nada de anormal.

Anormal é ver a imprensa – que não é constituída exatamente por jovens – buscando encontrar motivações nobres e altruístas para o vandalismo e açulando os malucos de todos os países para partir para a depredação. Jornalista não é ingênuo. Pode ser mau caráter, mas ingênuo não é.

Não faltará quem fale em primavera paulistana – escrevi há pouco. Bom, em primavera paulistana não se falou. Os defensores incondicionais dos jovens foram mais longe: falaram em primavera brasileira. Já há quem compare a baderna a Maio 68, esta formidável ficção criada pela imprensa. Pois Maio 68, quando tido como revolução, não passa de ficção.

Pas de sang, trop de sperme – dizem os franceses ao referir-se àquele maio. Quais transformações decorreram de lá para cá? Que me conste, a Sorbonne deixou de chamar-se Sorbonne e as universidades parisienses passaram a ser designadas por números. Ah! e foi criada a famosa Paris 8 – ou Paris Vincennes – chamada por uma ministra da Educação de poubelle du Thiers Monde, isto é, lata de lixo do Terceiro Mundo.

A universidade criada em 68 era tão reputada que seus egressos não ousavam dizer seu nome, digo, seu número. Quando alguém diz ser formado pela Université de Paris, desconfie. Tem boas chances de ser formado pela Paris 8. Este foi o saldo de 68. O resto é criação das mentes férteis do jornalismo.

Ainda há pouco, um leitor me objetava: mas e a condição subalterna das mulheres antes de 68? E os homoafetivos que eram vistos como não-humanos? Condição subalterna das mulheres na França de Mistinguett, Edith Piaf, Simone de Beauvoir, Marguerite Yourcenar? A condição de mulher livre da Beauvoir era tão pública e notória que, ao publicar O Segundo Sexo, o escritor católico Paul Claudel comentou: “Mais on sait déjà tout sur le vagin de cette dame”. E quando Yourcenar foi saudada como a primeira mulher a entrar na Academia de Letras Francesa, não faltou quem comentasse: você tem certeza?

Por outro lado, em 68 não existiam homoafetivos. Eram homossexuais mesmo. Aliás, homoafetivos só existem no Brasil. No resto do mundo, atendem pela antiga nomenclatura. Mas pode-se dizer que eram vistos como não-humanos, na França de Verlaine e Rimbaud, Proust e Gide, Jean Cocteau e Jean Genet?

Proust foi celebrado como gênio. Gide foi prêmio Nobel em 1947. Mas já no início do século fazia a franca defesa do homossexualismo, em Corydon. Gostava de caçar carne fresca em mictórios públicos. Alertado por amigos de estar se expondo demais, foi objetivo: “Mon Nobel me donne couverture”.

É fácil atribuir, ao longo do tempo que passa, virtudes a um movimento, virtudes que este movimento não teve. Hoje, o tempo nem precisa passar, a ficção vai sendo elaborada na hora. Os celerados que têm como bandeira o transporte gratuito – e só por isso deviam ser considerados inimigos de todo cidadão que trabalha e vai acabar pagando por tal transporte gratuito – já são vistos como sonhadores de um mundo melhor.

Temos um exemplo lapidar no Brasil da atribuição de virtudes inexistentes a movimentos sociais. Os vândalos de hoje já estão sendo comparados aos cara-pintadas de 92, que “derrubaram Collor de Mello”. Ora, os tais de cara-pintadas, que saíram às pressas às ruas para não perder a ocasião de posar para a imprensa, não derrubaram ninguém. Quem derrubou Collor foi o Congresso. E por que derrubou? Porque Collor, jovem e arrogante, não comprou o voto dos congressistas. Tivesse pensado em um mensalão, teria sido reeleito. Pode-se até mesmo dizer que quem derrubou Collor foi o próprio Collor de Mello.

No fundo dos protestos no Ocidente há uma nítida vontade marxista que não ousa mais dizer seu nome, a derrubada do capitalismo. Que ninguém os compare com os protestos no mundo árabe, onde há um desejo de capitalismo e liberdade. Aliás, já nem se ousa pronunciar o nome da coisa abominável. A palavrinha criada por Marx tornou-se tão obsoleta quanto Marx. Fala-se então em neoliberalismo.

Acontece que o capitalismo – ou neoliberalismo, como quiserem – emergiu triunfante na história após a derrocada do socialismo soviético. Ainda há pouco, um jornalista da Veja manifestava seu espanto ante o fato de que uma universidade patrocinasse cursos de marxismo. Ora, quem mais vai patrocinar? Por uma universidade veio o marxismo ao Brasil, a USP. Hoje, só universidades podem financiar utopias desvairadas.

“Não é preciso doutorado em sociologia ou psicologia para saber que, quanto mais violência for usada contra os jovens, maior será a violência de sua reação – escreveu ontem no Estadão Juan Arias, correspondente do El País no Brasil -. Sempre se disse que os jovens têm vocação para incendiário, até que completam 40 anos e passam a agir como bombeiro para apagar o fogo da contestação. Se movimentos de pessoas indignadas em todo o mundo fizeram amanhecer novas primaveras de esperança de mais democracia, é de se esperar que também o Brasil saia dessas manifestações de rua e protestos por causas justas mais fortalecido em sua democracia, conquistada com tanta dor, tortura e morte. Um país que encurrala seus jovens por medo de suas reivindicações é um país perdedor”.

Pretende o correspondente que o Estado entregue as cidades aos predadores? Que a polícia contemple de braços cruzados os “jovens” quebrando ônibus, metrôs e bancos? Quando que movimentos de pessoas indignadas em todo o mundo fizeram amanhecer novas primaveras de esperança de mais democracia?

Movimentos de pessoas indignadas só conturbam as cidades e atrapalham a vida de quem os sustenta. Pois são pessoas que não trabalham. Quem trabalha, não tem tempo nem disposição para ir até as ruas para enfrentar a polícia. Há jornalistas pretendendo apagar fogo com gasolina.

domingo, junho 16, 2013
 
PREFÁCIO E CRÍTICA DO PREFÁCIO
AOS POEMAS DO HOMEM DE ORION



PREFÁCIO
Um orionino inadaptado
Janer Cristaldo *

Desde minhas universidades venho acompanhando o trabalho tenaz e infatigável de Carlos Ducatti. Homem de preocupações cósmicas, nada do que é terráqueo a si alheio reputa, lutando tanto pela construção de um espaçoporto no Brasil para receber nossos vizinhos de outras galáxias como elaborando uma complexa parafernália destinada a exterminar pardais, ave monopolista e predatória (sem alusão alguma ao Bonfim, por favor!), cuja algaravia, além do mais, fere seus ouvidos.

Doublé de cientista e poeta, criador e animador do Clube Nova Era, viajante astral, Ducatti é filho dos mais sintomáticos deste século conturbado. Exaustas as religiões, falidas as ideologias, é através da Razão – esta nova deusa — que Ducatti buscará Deus. Recente exposição sua — praticamente ignorada por uma imprensa superficial, encharcada de crimes e futebol – nos trazia a dedução matemática da existência de Deus. Jorge Luis Borges disse alhures crer na teologia como literatura fantástica, “es la perfección del género". O pensamento ducattiano move-se paralelamente ao de Borges, quando, em Teociência, diz ser a matemática "abstrata, intemporal, onipresente (...) não tem emoções e numa esfera se revela melhor. Assim como Deus". Lemos, aliás, em sua súmula biográfica, referência ao ponto Aleph, outro tema típico da teodicéia - se assim podemos dizer — borgesiana.

Ducatti nasceu em Cruz Alta, RS, comuna que já deu ao Brasil um não menor talento, mas descobriu que provém espiritualmente do planeta Orion e, como tal, sente-se entre nós inadaptado. “Não me adapto à Terra, por demais grotesca para minha sensibilidade”.

Mas quem se adapta, meu caro? Neste sentido, somos iodos um pouco orioninos inadaptados, com a diferença que não ousamos soltar as rédeas ao sonho. Enquanto as autoridades porto-alegrenses, nestes dias de canícula, não resolvem a contento o problema das fugas em massa para o litoral, o poeta nos relata o caso do planeta Silonado, que “abrigava, em sua face, um povinho alaranjado". Dos vinte meses anuais do planeta, cinco eram de verão atroz. Os administradores de Silonado, aos quais a burocracia terrestre causaria horror, encontraram singela e racional saída ao impasse: “Resolveu-se desta forma, / cinco meses, na região / congelar o povo inteiro / no intervalo de verão. / Construíram, para isto, / milhares de hibernadores. / Todo mundo, congelado, / passa o tempo sem calores".

Enfim, não quero roubar ao leitor a degustação da poética ducattiana. Como comparatista, só lhe vislumbro, e distante no tempo, um par: Qorpo Santo, este singular gaúcho, hoje estudado nas universidades de França, Itália e Estados Unidos, graças a Aníbal Damasceno Ferreira, nosso esquálido pesquisador do insólito, E, durante um século, Qorpo Santo foi solenemente ignorado pelos soi-disants historiadores de nossa literatura. Necessitará Ducatti de mais um século para ser entendido? Há quem o julgue louco. Assim como, também foi catalogado Qorpo Santo.

Curiosamente, é culturalmente sacrílego fazer tal afirmação a propósito daquele outro, filho da judia Maria e do soldado romano Pantera, que percorria a Galiléia dizendo ser Deus um só, e ele, seu filho. Suas palavras invadiram o Ocidente, expulsaram os afáveis deuses pagãos, e hoje um católico, seja um leigo ou o próprio Papa, é considerado um ser mentalmente normal.

Enfim, como diz Ducatti, em um de seus poemas, onde denuncia a ditadura do consuetudinário:

“Chás de plantas mil... / Por que tomar só café / no imenso Brasil?”

Porto Alegre, 23 de novembro de 1981.

* Cristaldo é doutor em Literatura Comparada pela Université de la Sorbonne Nouvelle — Paris III.

CRÍTICA DO PREFÁCIO

Porto Alegre, 25 de novembro de 1981
Prezado Sr. Editor (Seção de Cartas):

Recebi há poucos dias, no Chalé da Praça Quinze, o prefácio de “Vibrações Poéticas”, elaborado pelo colega e amigo Janer Cristaldo. De estilo colorido e agradável, apesar de tipicamente intelectual, o trabalho tem vários defeitos a corrigir. O título já estava errado, ao incluir a palavra “orionano” (foi retificado, após). Conforme convenção informática de minha criação, válida para mundos e países, o sufixo ano (ou iano) designa habitantes de um certo lugar, e ino, seus descendentes (biológicos ou espirituais), moradores noutro lugar. Eu, por exemplo, sou italino, brasiliano (ou brasileiro) e orionino.

De 74 a 78, uma de minhas preocupações era construir um espaçoporto (elaborei até um projeto). Esqueci a idéia, pois apareceram outros grupos, no Brasil, interessados em tal objetivo. Sigo o princípio de “preencher lacunas", fazendo só aquilo que os outros não procuram fazer (e deve ser feito).

Não sei odiar. Tenho grande respeito pelas criaturas da Natureza. Adoro ver, cheirar e beijar flores. Há, entretanto, desequilíbrios ecológicos causados pela ignorância e ambição do homem. O pardal, originário da Ásia, invasor da Europa, trazido (há mais de meio século) para nosso país, é um pássaro anti-ecológico, vagabundo, arruaceiro, inimigo do tico-tico, do sabiá, etc.; constitui hoje a maior praga do Brasil. Combatê-lo é defender nossa bela e querida fauna.

Janer diz que somos todos inadaptados. . . Conforme o "Teste de Adaptação à Terra” (de minha autoria), aplicado em mais de trinta pessoas, eu sou terrivelmente inadaptado, em todos os sentidos; posso dizer que seria dificílimo encontrar um indivíduo com semelhante grau de inadaptação a este planeta. Meu principal problema é supersensibilidade crônica, e as soluções que descobri (a muito custo) até agora, não são eficientes. Para finalizar, declaro que não acredito que o Mestre Jesus tenha sido filho de um soldado romano. Suas características físicas e espirituais não se coadunam com tal idéia. Penso que seu pai era extraterrestre; ele teria sido gerado, em Maria da Galiléia, através de... “concepção cósmica" (um processo que não entendo).

Carlos A. Ducatti (cientista, filósofo e poeta)

sábado, junho 15, 2013
 
FALTA UM ORIONINO
EM FLORIANÓPOLIS



Começou ontem em Florianópolis o 1º Fórum Mundial de Contatados, que reúne pessoas que dizem ter tido proximidade com extraterrestres e pesquisadores do assunto. Haverá palestrantes de países como Estados Unidos, Argentina, Itália e Peru, além de brasileiros.

Entre os que afirmam que tiveram contato com alienígenas está um italiano que diz ter filmado objetos voadores não identificados, uma brasileira que afirma ter sido abduzida e um coronel norte-americano que denunciou que extraterrestres estariam vigiando o arsenal atômico dos Estados Unidos.

Já no lado dos pesquisadores estão brasileiros e um norte-americano que estudam abduções, um argentino que pesquisa sobre novas espécies e brasileiros que investigam o contato com alienígenas e a interferência dos mesmos na vida na Terra e na genética.

Pelo que leio, só está faltando o Carlos Ducatti no encontro. Com excelente prata da casa, os contatados e ufólogos brasileiros foram buscar no estrangeiro depoentes e testemunhas do fenômeno. Companheiro de charlas no Chalé da Praça XV em Porto Alegre, enquanto ufólogos discutiam viagens siderais, Ducatti ia e vinha de seu planeta natal com a aisance de um ilhéu que vai de Floripa a São José. Falo dele em Ponche Verde e fui honrado com o convite para prefaciar seu livro de poemas, publicado cá na Terra.

Porto-alegrenses de minha idade certamente lembrarão do cientista, filósofo e poeta orionino, que decidiu conviver conosco, terráqueos. Ou orionano, não lembro agora. Ele não era do sistema solar. Viera da nebulosa de Orion e tinha uma missão na Terra. À guisa de camuflagem, estudava Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Espantava-se com a idade das trevas em que viviam seus colegas de curso. Seguidamente eu o encontrava no Chalé da Praça XV e certa vez tivemos uma longa discussão sobre o que era ser orionino ou orianano. Não lembro agora como ele se definia. Mas havia uma substancial diferença entre um e outro conceito.

Ora, vivíamos em uma cultura na qual milhões de pessoas acreditam na existência de uma mãe virgem. Por que eu não aceitaria então que ele viera de Orion? Nunca pus em dúvida suas origens e, a cada vez que o encontrava, perguntava como estava a temperatura em Orion.

Ducatti fundou o Clube dos Sábios, que congregava sete pessoas, sendo uma delas sua mãe. Considerava que a mulher é prejudicial ao gênio. Só não seria prejudicial em uma circunstância: durante a relação, o homem deveria liberar um só espermatozóide. Interrogado por uma jornalista como isto seria possível, respondeu com um piscar de olhos:

- Questão de prática.

Pasmem! Foi de Ducatti que ouvi falar pela primeira vez a teoria dos buracos negros. Ele os conhecia muito antes de Stephen Hawking. Andava em busca de Galactus, ser galático que odiava a vida e se alimentava de planetas. Galactus fora, inicialmente, uma ilação teórica. Com o correr do tempo, sua existência passou a ser um imperativo de ordem conceitual, única explicação plausível para o desaparecimento de civilizações cósmicas multimilenares.

Até hoje, guardo em meus arquivos os panfletos nos quais Ducatti explicava seus projetos. Um deles era o esquema de uma complexa máquina matapardais. O Homem de Orion julgava que os ditos predadores tinham qualquer ligação com os poderes do mal, sem falar que não lhes suportava o chilreado. E os bichinhos eram legião em torno ao Chalé, particularmente na primavera. A máquina consistia basicamente em uma metralhadora giratória acoplada a quatro canhões sonoros e a um computador com gravação dos sons de pardais em sua memória. Ao ouvi-los, os canhões direcionais apontavam a arma para a fonte de emissão de ruídos e a metralhadora era acionada automaticamente. Havia pensado em uma arma à base de raios laser, mas sua filosofia ecológica não permitia sacrificar árvores.

Um outro projeto era uma proposição para viver com menos de um salário mínimo, cá neste infame planeta consumista. A proposição tinha 33 itens, entre os quais se destacavam: não ter carro, televisão, aspirador, batedeira, etc., coisas perfeitamente dispensáveis; ser autodidata, evitar pagar cursos; acostumar o estômago a exigir pouco alimento; botar pouco açúcar no chá; fritar ovos com água; não seguir a moda, coisa irracional que nos impele a fazer compras; não fazer seguros, confiar no cósmico e na fraternidade; ir de preferência a espetáculos grátis; em caso de esgotamento nervoso, ir ao campo (as clínicas são caríssimas); não fumar; não comprar boné contra o sol: andar pela sombra ou proteger-se com um jornal; não estragar os tênis ou sapatos jogando futebol; não comprar quadros, pintá-los; ter letra pequena, afim de economizar papel. Etc.

Em um outro prospecto, fazia uma crítica ao filme Guerra nas Estrelas, a partir de suas experiências astrais. Vinte seriam as falhas do filme, entre elas o fato de todas as estrelas aparecerem iguais, desprezando-se as diferenças de tamanho, distância e cor; mesmo em satélites, a gravitação é igual à da Terra; entre os extra-terrestres há muitos tipos monstruosos, cerca de oitenta por cento, quando o normal seria quinze; a invisibilidade de naves e pessoas, recurso muito usado por seres evoluídos, jamais ocorre; pessoas supostamente evoluídas alimentando-se com pratos e talheres, quando seres adiantados ingerem só líquidos ou prana.

Homem de ampla visão, Ducatti alimentava o projeto UNAT - União das Nações da Terra - com sede em Brasília, para substituir a ineficiente ONU. Seu principal objetivo, a busca inteligente e objetiva das soluções para os problemas humanos, sendo uma das primeiras tarefas resolver a questão palestino-israelita. E planejava a construção de um espaçoporto em Porto Alegre, para receber os óvnis de galáxias distantes. Creio que só eu acreditava piamente em suas viagens astrais.

Certo dia, quase tive uma eclampsia. Eu voltava das Ilhas Canárias. Na Gran Canária, estive no povoado de Arucas. Percorrendo sua geografia, encontrei uma espécie de oásis, algo como um mar sereno de areia em meio a montanhas pontiagudas. Lembrei do Homem de Orion e disse à minha Baixinha: “se os extras chegam à Terra, só pode ser aqui que eles aterrissam. Preciso comunicar ao Ducatti.” Encontrei-o no Chalé, como sempre.

- Ducatti, estive em Arucas, na Gran Canária. Acho que é lá que os extras aportam.
- Sei disso – respondeu o Homem de Orion -. Já escrevi ao prefeito de Arucas.

E puxou do bolso uma carta, a resposta do prefeito de Arucas. Profundo mistério!

Iludidos pelo cintilar de luzes da mídia, os organizadores do encontro em Florianópolis foram buscar no Exterior pretensas sumidades, que certamente jamais chegaram um aninho-luz sequer perto de Orion. E deixaram de lado quem deveria, na verdade, ser o homenageado do encontro.

Desde que abandonei Porto Alegre, perdi o contato com o viajante espacial. Não tenho idéia de qual será sua idade em Orion, mas deve estar sexagenário em anos terrestres, contemplando com terna ironia nossa insciência em matéria de visão do universo.

sexta-feira, junho 14, 2013
 
FOURIER E OS MILITANTES
DO PASSE LIVRE



Os marmanjos querem então transporte gratuito. Ora, nem mesmo a um bugre, no fundo da floresta, ocorreria tal disparate. Em sua insciência, o selvagem intuiria que algo deve dar em troca de tal conforto, já que até mesmo a caça exige o esforço de ser caçada. Para empunhar tal bandeira, não basta ser ingênuo. É preciso ser mau caráter.

É óbvio que as manifestações não são pela redução que os utópicos concedem reivindicar, uma redução de vinte centavos no preço das passagens. Têm manifesto sentido político e visam as eleições do ano que vem. O problema do transporte coletivo nas metrópoles brasileiras é muito maior que vinte centavos.

Nos anos 70, lembro ter visto foto das plataformas do metrô de Tóquio, que mostravam uma curiosa profissão, a de empurrador. Universitários eram contratados para empurrar passageiros para dentro dos vagões. Que horror, pensei então, como os japoneses conseguiram chegar a esse ponto? Pois chegamos lá. Sem universitários que nos empurrem.

Há uns bons quinze anos não uso transporte público em São Paulo. Não tenho carro. Nem nunca tive. Minhas locomoções, em geral pelo bairro, são feitas a pé. Se preciso ir mais longe, tomo um táxi. Se é para ir longe, melhor começar por Cumbica. Mas já usei ônibus e metrô. E se há quinze anos o serviço era deplorável, imagino agora.

Não que fosse deplorável há quinze anos. Era deplorável há trinta anos. Lembro que, ao voltar de Paris, fui visitar uma amiga aqui em São Paulo. O trajeto seria longo. Acostumado com o conforto – de então – do metrô parisiense, pensei com meus botões: vou comprar jornais para ler durante a viagem. Comprei.

Santa ingenuidade. No ônibus, mal tive espaço para erguer os braços e pendurar-me naquelas alças, tão nossas, tão Terceiro Mundo. Há muito não uso transporte público, dizia. Mas já vi fotos de plataformas de metrô em hora de pique. Há uma maré humana assustadora nas plataformas, sem nenhuma barreira de contenção entre a plataforma e os trens. Basta um movimento de pânico e dezenas, senão centenas de pessoas, serão jogadas nos trilhos. Espero não estar sendo profeta.

Usar transporte público quando viajam é o que recomendo a presidentes, governadores e prefeitos quando viajam. Assim veriam que transporte público pode ser confortável. Mas estes senhores jamais pisam em um metrô quando em Paris, Londres ou Berlim. Só se dignam locomover-se em carros oficiais.

Nos dias de Estocolmo, início dos anos 70, algo perturbou minha visão de mundo. Nas paradas de ônibus, um aviso dava os horários em que o ônibus passaria por ali. Por exemplo: 7h15m, 7h22m, 7h29m, 7h36m. E você podia acertar seu relógio pelo ônibus. Era mais provável seu relógio estar adiantado do que o ônibus atrasado. Quando o ônibus se aproximava do ponto antes do horário previsto, o motorista fazia tempo para não chegar adiantado.

Isto é civilização, pensei na época. Quando fui morar em Paris, já vi a cidade como símbolo do caos: não havia tais anúncios. Hoje há. Mas a cidade levou algum tempo para chegar à civilização. Em São Paulo, não temos nem indicação do trajeto dos ônibus. Quando você embarca, embarca rumo ao desconhecido.

Sem falar na altura dos degraus de entrada. De meus dias de sofrimento, já vi senhoras empurradas pelo traseiro para poder entrar no ônibus. Volto a Estocolmo: foi lá que vi, pela primeira vez e para meu pasmo, ônibus se inclinando para que o passageiro entrasse.

A primeira linha de metrô de Londres entrou em operação no dia 10 de Janeiro de 1863 com a Metropolitan Railway, de onde surgiu o termo "metro". Em Paris, a rede foi inaugurada em julho de 1900, após décadas de discussões políticas sobre as rotas e construção. Em 1913, Buenos Aires inaugurava sua primeira linha de trens subterrâneos, sendo a primeira de seu tipo na Ibero-América e em todo o Hemisfério Sul.

Na ocasião, chamávamos os argentinos de macaquitos, por imitarem os ingleses. Hoje Buenos Aires tem um tráfego ameno, que em nada se compara ao trânsito de São Paulo, onde 150 quilômetros de engarrafamento fazem parte da vida do paulistano. Quando conto isto a meus amigos franceses, eles acham que exagero. Nenhum habitante de cidade civilizada consegue imaginar 150 quilômetros de engarrafamento. O paulistano até que se gaba disto.

Fora do metrô não há salvação, costumo afirmar. O metrô de São Paulo começou a operar em 1974, mais de século após o metrô londrino, três quartos de século após o parisiense. Tem hoje 64 estações, em oposição às 268 de Londres e às mais de 300 de Paris. Londres tem 8,5 milhões de habitantes. Paris tem 2,2 milhões. São Paulo, 20 milhões.

É a abissal falta de visão do brasileiro o que está atrás da crise dos transportes urbanos nas grandes cidades, e não 20 centavos. Hoje ainda, em São Paulo, há quem prefira a locomoção de superfície, que só enfeia e atrapalha a cidade. No final do século passado – que está apenas a uma década de distância – Celso Pitta venceu as eleições para prefeito tirando do bolso o fura-fila, um trem de superfície, reminiscência talvez de historinhas de ficção científica de sua infância, onde as cidades do futuro eram percorridas por deslumbrantes trens aéreos.

Coisa de gibi ianque. Os europeus cedo descobriram que o futuro dos transportes estava embaixo, e não acima da superfície. Acontece que obras subterrâneas não são visíveis. Nossos administradores preferem obras visíveis, a tal ponto que só em São Paulo vi esta anomalia, as estações de metrô acima da superfície, o que significa desapropriações onerosas e mais problemas para o tráfego.

Fora dos horários de pico, o transporte coletivo nas capitais européias é lazer dos mais profícuos. Os vagões mais parecem salas de leitura, e já vi inclusive passageiros lendo partituras, acompanhando os acordes com agitados movimentos de mão. Em Estocolmo, quando lá vivia, existia uma linha de metrô de longo percurso, com um vagão transformado em sala de aula, onde se estudava até mesmo grego.

Os filhinhos de papai que queimam e depredam nas ruas de São Paulo acham que o problema dos transportes coletivos reside em 20 centavos. Ontem ainda, citei colunistas que vêem nas depredações indícios de sonho. “A molecada vai para as ruas defender o seu direito de sonhar com um mundo diferente”. Para construir um mundo novo, é preciso destruir o antigo.

Estamos no reino das utopias desvairadas. Mas mesmo no universo do pensamento utópico houve quem preservasse o bom senso. Em seus falanstérios, para os jovens que pretendiam acabar com a propriedade privada, Fourier tinha um ofício: seriam aproveitados como mão-de-obra na demolição de edifícios.

quinta-feira, junho 13, 2013
 
QUANDO SONHADORES
DEPREDAM ÔNIBUS





Assim como a imprensa criou o Maio 68, alguns jornalistas com pretensões de moderninhos parecem querer criar um Junho 2013. Em seu blog, Marcelo Tas compara o vandalismo de um punhado de filhinhos do papai a serviço do PT em São Paulo aos protestos da praça Taksim em Istambul. “Não sou a favor do vandalismo. Nem da demonização da Polícia Militar. Sou a favor de algo delicado demais para esses tempos ruidosos: dos sonhos”.

Sonhos? Que sonhos? Os manifestantes empunham uma bandeira utópica que em lugar nenhum do mundo ousou ser hasteada, o transporte público gratuito. Pelo jeito ainda não descobriram que não existe almoço grátis. Transporte público gratuito é sinônimo de transporte subsidiado pelo contribuinte. Porque Estado não subsidia coisa alguma. Mas em algo o jornalista tem razão:

- O que vejo nas manifestações em São Paulo não é simplesmente uma revolta por 20 centavos a mais no preço da passagem dos ônibus, como muitos tentam vender os fatos. Assim como não vejo em Istambul uma revolta pela construção de um shopping numa pracinha no centro da cidade.

De fato, o que está em jogo não são 20 centavos. E os rebeldes de São Paulo não são exatamente rebeldes sem causa. Estão em jogo as eleições do ano que vem. As manifestações violentas dos últimos dias – que prometem se repetir hoje – têm um só objetivo, desgastar o governo de Alckmin. Não imagine o leitor que tenho alguma simpatia por tucanos. Apenas constato. Tas alega que desgasta também a prefeitura do PT.

- Também vejo, e quero muito acreditar nisso, que não há uma tendência partidária nas manifestações. Afinal, em São Paulo, o prefeito petista está alinhado com o governador tucano na mesma posição.

Nada mais falacioso. Na verdade, só beneficia o atual prefeito. Haddad apela a Dona Dilma – como já apelou - e, se esta se digna a soltar algum lastro, ele se transforma no prefeito que foi sensível aos apelos populares. O PT põe o bode na sala e pede aplausos quando o retira.

Tem razão também o jornalista que a revolta de Istambul não é contra a construção de um shopping numa pracinha no centro da cidade. Não é preciso estar lá para saber disso. O movimento já se estendeu a outras cidades da Turquia, onde ninguém está construindo shoppings no centro da cidade. As manifestações, pelo que se lê, são contra a islamização crescente do governo de Recip Erdogan. No fundo, um desejo de ocidentalização de uma Turquia que se candidata a membro da União Européia, mas não larga o osso do Islã.

Se há uma preocupação pertinente na revolta na Turquia, o vandalismo em São Paulo não passa de uma reles manobra eleitoreira. Pelo que se sabe, os incêndios e depredações estão sendo patrocinados por uma ONG que mama nas tetas do Estado.

Em meio a isso, Luís Nassif reproduz em seu blog o manifesto de um tal de André Pedro Borges, que só vê candura e sonhos no vandalismo dos paus mandados do PT:

- Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agrobusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Se o quebra-quebra era originariamente contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus, de repente assume proporções que nem os baderneiros imaginavam: é o direito ao sonho. Transporte gratuito, droga livre (como se já não fosse), excelência de uma cultura onde até infanticídio é permissível, em oposição ao malvado agrobusiness – sem o qual o país morreria à míngua. Borges defende a livre eleição de parceiros, neste país onde homossexuais fazem a primeira página dos jornais. Como se o Brasil fosse uma teocracia islâmica, onde crianças são vendidas em casamento. O articulista até parece ter encontrado um sistema de democracia mais eficaz do que o voto universal, pena que não nos revela qual seja.

- Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde - diz André Borges -, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Engana-se o Borges. Quem trabalha e ganha honestamente seu pão está fora de moda. Jamais vai ganhar a primeira página dos jornais, nem entrevistas privilegiadas. Só tem direito a voz, nestes dias que correm, quem quebra vitrines, depreda bancos e queima ônibus.

- Não é meu caso - prossegue o arauto da violência -. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre. Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Atenção! Teoria nova na mídia. Os responsáveis pelos avanços da humanidade já não são os cientistas, os estadistas, os professores, os inventores, os descobridores. Mas os vândalos, que com suas ações fertilizam a terra e iluminam a humanidade.

No fundo, o sonho por um mundo diferente, no dizer dos defensores de quebra-quebras. Talvez o país da Cocagne, aquela pátria imaginária longe da fome e das guerras, onde as frutas caíam das árvores nas bocas de seus habitantes, onde imperava o lazer e a preguiça e onde o trabalho era proibido. De repente, uma reedição de Maio 68, que adotou como slogan uma frase de Che Guevara: “seamos realistas, pidamos lo imposible”. O impossível do Che aí está, uma ilha faminta e dominada pela mais longa ditadura do século passado.

Sonho paradoxal este, onde em nome do passe livre queimam-se meios de transporte. Como já se convencionou chamar de primavera qualquer protesto de massas, é de espantar que nenhum jornalista ainda não tenha ousado falar em primavera paulistana. O leitor não perde por esperar.

O dia promete hoje na Paulicéia. Além da baderna, há greve geral de transportes. O saldo global será evidentemente creditado aos militantes do sonho.

quarta-feira, junho 12, 2013
 
PARA TI *




Viagem infame, aquela! Nossa noite já havia sido de angústia, prenúncio de uma partida sem volta. No dia seguinte, imbecis, rumamos um para o norte, outro para o sul. Te apertei com desespero até a estação, não sabia quando te voltaria a ver. Sei, há muitas mulheres no mundo, mas se tu existias para que buscar outra companheira de caminhada? Minto, não é bem isso, é algo ainda mais simples. Te adorava, e pronto! Posso perder a memória, mas jamais a lembrança daquela manhã que não desejo a ninguém, manhã abominável, para sempre permaneça sepultada lá em Madri.

O Talgo começou a mover-se, lento como todos os trens que separam amantes, lento mas inexorável, cada vez menos lento e mais inexorável, e teu vulto envolto em lãs e distância foi se tornando cada vez mais distante e mais terno, um nó começou a me estraçalhar a garganta, não resisti. As lágrimas foram rolando sem muita cerimônia.

Um espanhol a meu lado, muito discreto, desviou o olhar para não imiscuir-se em meus sentimentos. Lembras aquele boné de bisão que me deste em Amsterdã? Pois é, o espanhol tomou-me por russo, tenho certeza que intimamente se perguntava por que razões andaria este cossaco chorando em Madri. Cossaco é a vovozinha, sou gaúcho de Ponche Verde. Gaúcho chora? Chora sim, basta que sofra.

Quando cheguei em Paris, estavas em Lisboa. Era tempo ainda, bastaria um telefonema para o aeroporto para pôr fim àquela insensatez. Mas sempre fui obstinado, continuei teimando em minha viagem rumo ao frio. Mais algumas horas e um oceano estaria nos separando. Seria tarde para voltar e eu queria que fosse tarde para voltar – para não voltar.

Em uma gare apanhei o resto de minhas malas e atravessei aquela Paris, cheia de charme quando chegamos, cheia de cinza quando voltei. A neve que aconchegava os campos, que contigo me parecera tão macia e tão morna, era agora cada vez mais neve e mais fria. Frio por dentro, atravessei aquela Alemanha fria sem disposição alguma para divertir-me às custas dos Deutschen e seus ares marciais, como fazia quando contigo.

Atravessei uma Holanda sem graça, uma Dinamarca sem graça, rumo a uma Estocolmo sem graça alguma. A graça estava em ti e tu voavas rumo ao sul. No ferry-boat para Helsinborg – já estarias próxima a Porto Alegre – fugi do restaurante e fui até a proa, se estava enregelado por dentro pouco importava enregelar-me por fora. O barco avançava com dificuldade no mar congelado, o céu era cinzento e me pesava como chumbo aos ombros e eu, o estúpido, tinha ganas de jogar-me ao Báltico, estou certo que quebraria sua crosta hibernal, cabeça-dura como sou.

Estocolmo. Noites brancas e sempre frias. Da janela de meu quarto, em meio a um silêncio que feria os ouvidos, eu não olhava sequer a neve, mas o vazio. Não poucas noites fiquei em pé, frente à janela, olhando aquele vazio que não seria vazio se estivesses lá. Sos um boludo, che! – dizia-me um boliviano – en Brasil hay una mujer que te quiere, que haces en esta tierra de hombres tristes? Que fazia? Não sei, como tampouco ele sabia que fazia lá. Errâncias...

Lá, recebi e dei calor, calor humano e animal. Muitas noites enrosquei-me em uma lena (doce, em sueco) Lena, que por sua vez me apertava sonhando apertar um romeno de Bucareste. Amávamos por procuração, sem que nenhum mandato nos tivesse sido outorgado. Mas não era ela quem eu apertava, tampouco era eu quem ela apertava. Desculpa o lugar comum: éramos apenas bons amigos, angustiados amigos. Até que um dia deixei de ser besta, atei a mala nos tentos e voltei a trote largo pra querência. E se não me esqueço daquela manhã infame em Madri, tampouco esqueço aquela manhã linda no Rio. Não te esperava e lá estavas, chorando grudada às grades do portão do cais.

Vivendo e aprendendo! Sonhei com divas e deusas e cá estou comovido com uma baixinha dentuça. A quem espero, mesmo de cabelos brancos, jamais chamar de minha mulher ou minha esposa, mas simplesmente de minha guria.

* Porto Alegre, Folha da Manhã, 13/06/77

terça-feira, junho 11, 2013
 
FESTAS QUE HUMILHAM


Nasci em família bem constituída, e só podia ser assim. Nasci em um deserto verde, onde os vizinhos mais próximos ficavam pelo menos a dois quilômetros de distância e eram todos parentes. Isto é, a geografia tornava inviável até mesmo a infidelidade. Apesar de às vezes apanhar com vara de marmelo – por certo o merecia – sempre tive carinho por meus pais. Ou seja, não tenho razão alguma para rejeitar a célula familiar.

No entanto, nunca me senti bem junto a famílias. Participo daquela concepção de Alberto Moravia (se é que alguém ainda lembra dele), de que a família é uma fortaleza de egoísmo, onde os soldados são os filhos e os pais são os generais. Me identifico mais com aquele lobo da estepe, do Herman Hesse, o Harry Haller. Diria que, fora minha família, jamais convivi com qualquer outra. E mesmo com a minha meu convívio foi curto, pois saí do campo para a cidade aos 11 anos.

Durante toda minha vida, cultivei pessoas isoladas. Me sinto mais à vontade entre elas. Minha relação com a mulher que elegi não chegou a constituir o que se chama família. (Entendo que família implique filhos). E até hoje me relaciono quase que exclusivamente com outros lobos de minha estirpe.

É possível que, em meus dias de adolescente, dadas minhas leituras de anarquistas portugueses, eu tenha dirigido impropérios à bendita instituição. Não lembro. Lembro de já ter falado em “raça infame de maridos”, herança de Les oiseaux vont mourir au Pérou, filme dirigido por Romain Gary, de 1968. Mas diria que sempre aceitei a família como fato consumado, e não tinha nada contra, desde que a tal de família não se aproximasse muito de mim.

Não me importando com a família, para mim tanto fazia que fosse destruída ou não. Assim, as ameaças à família denunciadas por católicos e religiosos outros jamais me comoveram. Se estava ameaçada e era incapaz de enfrentar a ameaça, isto apenas significava que a instituição não era lá muito sólida. A discussão não me dizia respeito. Lembro que nos anos 70, quando se falava da introdução do divórcio no Brasil, não faltou quem falasse na morte da família e em atentado aos valores do Ocidente. Morreu coisa nenhuma. Com o divórcio, as famílias se multiplicaram.

Se nada tenho contra a família, algo que sempre abominei foram os dias dos pais, dias das mães. Sempre vi estas comemorações apenas como pretextos de vendas, da mesma forma que o Natal. Embora hoje costume relembrar meus seres amados que partiram nessas ocasiões, jamais festejei nenhuma delas. Enfim, se querem vender ou comprar, que comprem e vendam. Mas as celebrações destas datas em escolas me parecem particularmente cruéis.

Vivemos em um país onde há milhares de crianças sem pais, isso sem falar das que também não têm mães. Em qualquer colégio vamos encontrar órfãos e filhos de casais separados. Como fica uma criança que não tem a presença do pai e da mãe em meio a outras que festejam os seus? Deve ser no mínimo traumático para a criança. Todas as crianças em volta celebram o carinho paterno e materno e sempre haverá não poucas que disto sempre foram ou estão privadas.

Leio nas ditas redes sociais – e digo leio nas redes porque ainda não vi a notícia em jornal sério - que a prefeitura de Brusque, Santa Catarina, proibiu a realização de homenagens ao Dia das Mães e dos Pais nas escolas da rede municipal, com a argumentação de que alguns alunos poderiam ficar constrangidos. Pode ser.

Se for, a prefeitura não deixa de ter razão. Esses festejos constrangem não poucas crianças. Mas já quem esteja vendo a famosa conspiração contra os valores do Ocidente e o incentivo ao fim da família. Já tem até intelectuais falando em “ataques à família por parte dessa esquerda gramscista” na decisão da prefeitura de Brusque.

Que foi associada a uma Proposta de Emenda Constitucional da senadora Marta Suplicy, elaborada pela Comissão Especial de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a qual estabelece o Estatuto da Diversidade Sexual. “Gente, estamos chegando ao final dos tempos, ao fundo do poço. Está se querendo acabar com a maior das nossas heranças que é a família”, disse alguém. Seria o avanço da Quinta Internacional, a dos Gays, em luta contra o Ocidente.

Depois da queda do Muro e do desmoronamento da União Soviética, ficou um tanto démodé falar em luta de classes. Mas os filhos-da-luta, no dizer de Ira Levin, não podiam ficar sem causa. Logo após a derrocada, a palavra racismo invadiu a redação dos jornais. A luta agora era a do negro contra o branco. Ultimamente surgiu mais uma, a dos homossexuais contra os heteros. E a não-celebração das festas dos pais ou das mães foi saudada como resultado da revolução gay em andamento.

Confesso não saber por que razões a festa foi proibida, se é que foi proibida, pois parece que não foi. Segundo uma vereadora, não há uma proibição por parte da prefeitura e sim uma recomendação para que cada escola faça a homenagem da forma que achar conveniente, e que faça não só para mãe ou pai, mas sim para a família.

Tenha sido ou não proibida, sou pela proibição. Tais festas, cujo objetivo é meramente comercial, acabam humilhando alunos pobres, que não têm como presentear seus pais; alunos órfãos e filhos sem pai conhecido, que não têm de quem receber – ou a quem atribuir – afeto; e alunos de pais separados, que não entendem porque seus pais se separaram.

Por outro lado, tais festas alimentam a ficção de que a instituição familiar continua sólida e saudável e tem um belo futuro pela frente. Ora, a família está em rápido processo de dissolução – ou de transformação como quisermos – mesmo ao arrepio da legislação.

Em nome de um neologismo torto, a tal de homoafetividade, o STF rasgou a Constituição de uma penada e instituiu casamento homossexual no país. E a bigamia está sendo instituída pelos cartórios, com o apoio de uma teoria psicológica, denominada "poliamorismo", que admite a coexistência de duas ou mais relações afetivas paralelas em que casais se conhecem e se aceitam em uma relação aberta. No fundo, a antiga formulinha conhecida como matriz e filial, só que agora com o respaldo de tabeliões.

Assim que, se alguma criança se sentir constrangida ao ver uma outra com dois pais ou duas mães, o constrangimento foi legitimado pela suprema corte do país e por cartórios. Mas esse é constrangimento menor. Constrangimento mesmo é não saber o que é pai ou mãe.

segunda-feira, junho 10, 2013
 
IRÃ DOS AIATOLÁS
PROÍBE CACHORROS



Regime iraniano persegue até os cachorros – leio no Estadão -. Animais são vistos como impuros pelo Islã e considerados uma futilidade da cultura ocidental.

No Irã, o cachorro não é o melhor amigo do homem. O regime iraniano voltou a combater a posse de cães, vistos como impuros pelo islamismo. No entanto, o farmacêutico Soroush Mobaraki, dono de pet shop em Teerã, diz que as vendas estão aquecidas, apesar do medo de que os bichos sejam apreendidos e seus donos, multados. "Vendemos 20 cães por mês, mas sei de outros lugares que vendem muito mais", diz.

Durante décadas, ter um cachorro em casa era uma raridade. Cães de guarda, pastores e de caça sempre foram aceitos, mas, nos últimos anos, as autoridades se assustaram com a quantidade de gente de classe média que adquiriu um bicho de estimação para imitar a cultura ocidental.

"As pessoas querem ter um cachorro por status, do mesmo jeito que querem ter um carro de luxo", afirma Mobaraki. Os clérigos andam furiosos com os iranianos que vestem seus cães com roupas e acessórios ocidentais e desfilam com eles em carrões. "No Ocidente, muita gente tem mais amor por seus cachorros do que por mulheres e filhos", disse o aiatolá Naser Shirzi. A declaração, assim como um decreto emitido por ele, levou o Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica a proibir todos os meios de comunicação de veicular comerciais sobre animais de estimação. A restrição, adotada em 2010, obrigou muitos criadores a manter seus cães escondidos.


Não é exatamente por repulsa ao Ocidente que os iranianos têm restrições aos cães. Ocorre que o Profeta – que Alá o tenha em sua glória – não gostava de cachorros. E particularmente dos cachorros pretos. Embora Maomé nada tenha dito a respeito do assunto no Corão, sua doutrina está expressa nas hadiths, ditos transmitidos ao homem. Que, em terminologia islâmica, significam os ditos de Maomé. Obra de teólogos, algo como o Talmud para os judeus.

O Apóstolo de Alá ordenou que todos os cães fossem mortos – diz uma hadith. Os cães não são uma espécie de criaturas que eu mandaria que fossem mortos; mas matem todos os que são totalmente pretos – diz uma outra. Ibn Mughaffal registrou: o Mensageiro de Alá ordenou que se matassem os cães, e então disse: E quanto a eles, isto é, quanto aos outros cães? E ele deu permissão para se manter cães para a caça e manter cães para a segurança dos rebanhos, e disse: quando um cão lamber um utensílio, lave o utensílio sete vezes e o esfregue com terra a oitava vez.

Abu Zubair ouviu Jabi Abdullah dizendo: o Mensageiro de Alá nos ordenou que matássemos os cães e levamos isso tão a sério a ponto de ir matar um cachorro vagueando com mulheres do deserto. Então o Apóstolo de Alá proibiu que o matássemos. E disse: “É seu dever matar o de manchas pretas que têm duas manchas nos olhos, porque são demônios. Extraio estes dados do site do Centro Cultural Beneficente de Foz do Iguaçu. Continua a reportagem do Estadão:

A polícia já reforçou a repressão aos cães e tem abordado pessoas que passeiam com os animais na rua. "Carros transportando cães também serão apreendidos", anunciou, em abril, o vice-chefe da polícia iraniana, Ahmad Reza Radan, segundo a agência Fars.

Ativistas dos direitos dos animais questionam a legalidade da lei e acusam o governo de promover uma apreensão generalizada de cães e de levá-los para "locais não revelados". "As pessoas estão sendo informadas de que seus animais serão mortos e não recebem documento confirmando a apreensão", diz Bahar Mohebi, diretor de um hospital veterinário de Teerã.


Que muçulmanos tenham restrição a cães em seus países, nada contra. Cada povo faz suas leis. O problema é que pretendem eliminar os cães do território europeu.

Hasan Küçük – representante turco-holandês no Conselho de Haia pelo partido Democratas do Islã - propôs a proibição de cães na cidade, a terceira maior do país. Paul ter Linden, que representa o Partido Holandês da Liberdade, respondeu; “neste país, a propriedade de pets é legal. Quem não gosta disso deve mudar-se para outro país”.

Na Espanha, dois grupos islâmicos com base em Lérida – cidade da Catalunha onde 29 mil muçulmanos constituem 20% da população – pediram às autoridades locais para regulamentar a presença de cães nos espaços públicos, para não ofender os muçulmanos.

Eles pedem a proibição de todas as formas de transporte público, incluindo ônibus e todas as áreas freqüentadas por imigrantes muçulmanos. Alegam que a presença de cães em Lérida viola sua liberdade religiosa e seus direitos de viver segundo os princípios islâmicos.

Após a municipalidade recusar os pedidos dos muçulmanos, a cidade experimentou uma onda de envenenamento de cachorros. Mais de uma dúzia de cães foram envenenados em setembro de 2011 nos bairros de Cappont e La Bordeta, distrito que é principalmente povoado por muçulmanos e muitos outros cães foram mortos nos últimos anos. Moradores do bairro que saem a passear com seus cães foram agredidos por imigrantes que se opõem a ver animais em público.

No Reino Unido, passageiros cegos foram retirados de ônibus ou tiveram corridas de táxi recusadas porque motoristas ou passageiros têm objeções aos “impuros” cães-guia. Em Reading, um aposentado que sofria de câncer confrontou-se repetidamente com os condutores e foi instado a sair do ônibus em razão de seu cão-guia. Enfrentou também hostilidade no hospital e super-mercado por causa do animal.

Em Nottingham, um chofer de táxi muçulmano recusou-se a transportar um cego acompanhado de seu cão-guia. Foi multado em £300 (R$ 812). Em Stafford, um chofer de táxi muçulmano recusou-se a levar um casal de velhos cegos a uma confeitaria porque estavam acompanhados pelo cão-guia.

Em Londres, um condutor de ônibus proibiu uma mulher de entrar com seu cão, porque havia uma lady muçulmana que poderia ficar perturbada com o cachorro. Enquanto a mulher tentava reclamar, bateu-lhe a porta do ônibus na cara e seguiu em frente. Quando chegou um segundo ônibus, ela tentou novamente embarcar, mas foi novamente detida, porque o chofer alegou que era muçulmano.

Ainda no Reino Unido, os cães farejadores da polícia treinados para identificar terroristas nas estações de trem não poderão mais fazer contato com passageiros muçulmanos, segundo queixas de que isto é ofensivo à sua religião. Prisioneiros muçulmanos no país recebem novas roupas pessoais e de cama após os cães-farejadores terem examinado suas celas. Os prisioneiros alegam que suas roupas de cama e uniformes de prisão precisam ser trocados de acordo com a lei islâmica se estiveram perto da saliva de um cão.

Que dizer de tudo isto? – comentei há mais de ano -. Apenas o óbvio. Quando um morto de fome lá das Arábias consegue emprego decente na Europa e se julga no direito de recusar passageiros em seu táxi ou ônibus, quando imigrantes fodidos querem expulsar os cães das cidades que os recebem, quando prisioneiros exigem troca de roupas se um cachorro examina suas celas, e quando os europeus aceitam esta arrogância islâmica, isto significa só uma coisa: que a Europa se rendeu à barbárie do Islã.

Em meio a isto, a última Veja dedicou longa reportagem ao atentado mais sangrento da história argentina, ocorrido no dia 18 de julho de 1994, quando terroristas iranianos explodiram uma van em frente a um prédio onde funcionava a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia). O saldo da carnificina foi de 85 cadáveres. Recente relatório elaborado pelo procurador especial Alberto Nisman, acusa a cúpula do governo iraniano de ter sido mandante do crime.

A ordem foi dada por Ali Khamenei, o líder supremo do Irã, em uma reunião em agosto de 1993, Mais ainda, o atentado tem suas raízes no Brasil. Doze extremistas citados por Nisman como tendo vínculos com o Hezbollah viveram, visitaram parentes ou mantiveram negócios em três cidades brasileiras: Foz do Iguaçu, São Paulo e Curitiba. Pelo menos quatro deles tiveram participação direta ou indireta no atentado à Amia.

E teve suas conseqüências em São Paulo. Após o atentado, aqui em Higienópolis, a sinagoga de minha rua transformou-se em bunker. Pesados anteparos de concreto armado foram dispostos na calçada para prevenir carros-bomba. O que vai contra as posturas municipais. Um secretário de urbanismo disse que no dia seguinte faria desaparecer das ruas tais anteparos. No dia seguinte, quem desapareceu do cargo foi o secretário.

O relatório de Nisman vem pipocando na imprensa nacional e internacional desde o início da semana passada. A notícia, que implica Teerã, Buenos Aires, São Paulo e Foz do Iguaçu, até hoje não mereceu uma linha sequer da Folha de São Paulo.

O correspondente da Folha em Teerã, Samy Adghirni, é xiita de carteirinha. Por isso os leitores da Folha ficam à míngua em matéria de informação sobre o Irã. Cá de São Paulo, a Veja está fazendo melhor cobertura do Irã do que o jornal que postou um jornalista lá.

domingo, junho 09, 2013
 
DOM ODILO SCHERER E OS
CRISTIANISMOS DERROTADOS



Dom Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, lembrou ontem no Estadão os mártires São Justino e seus companheiros.

- Presos sob a acusação de "heresia", por se recusarem a adorar o imperador e seus deuses oficiais, Justino e seus companheiros foram interrogados por Rústico, prefeito da cidade – diz o cardeal –. Depois de arguir os acusados quanto às suas convicções, Rústico os ameaçou: "Agora vamos ao que interessa, aproximai-vos e, todos juntos, sacrificai aos deuses. Se não o fizerdes, sereis torturados sem compaixão". Diante da recusa firme dos cristãos, o prefeito sentenciou: "Os que não quiseram sacrificar aos deuses e obedecer à ordem do imperador, depois de flagelados, sejam levados para sofrer a pena capital". E, assim, Justino e seus companheiros foram torturados e decapitados.

Duros tempos aqueles. Sua Eminência só não lembra os mártires dos outros cristianismos, daqueles cristianismos que foram relegados à condição de heresia, por não serem convenientes ao poder da Igreja. Sim, porque houve muitos cristianismos. Só vingou um, o que matou ou mandou para o exílio ou para a fogueira o maior número de dissidentes. O da igreja triunfante de Roma.

Dogma é fogo. Quando bispos se reuniam em concílio para saber se deus era um em três ou três em um, ai daqueles que perdiam a discussão. Eram enviados ao exílio ou à fogueira. Os santos padres levavam os plebiscitos a sério. Não era como esta bagunça hodierna, em que os defensores de uma tese no Congresso ou no Supremo perdem uma causa e ainda ficam chiando nos jornais.

Nos séculos II e III – escreve Bart Ehrman em Os Evangelhos Perdidos – havia cristãos que acreditavam que a morte de Jesus trouxera a salvação do mundo. Outros pensavam que a morte de Jesus nada tinha a ver com isto. Havia ainda uma corrente segundo a qual Jesus nunca morreu. O autor faz algumas perguntas que jamais ocorrem aos seguidores contemporâneos do Cristo.

- Como poderiam algumas destas visões até mesmo ser consideradas cristãs? Ou, colocando a questão de forma diferente, como as pessoas que se consideravam cristãs poderiam defender tais crenças? Por que não consultavam suas Escrituras para ver que não eram 365 deuses, ou que o verdadeiro Deus havia criado o mundo, ou que Jesus havia morrido? Por que elas simplesmente não liam o Novo Testamento?

É simples para Ehrman. É por que não havia Novo Testamento. “Com certeza, os livros que foram finalmente reunidos no Novo Testamento haviam sido escritos em torno do século II, mas eles não tinham sido ainda agrupados em um cânone autorizado e amplamente reconhecido de Escritura. E havia também outros livros igualmente impressionantes – outros Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipses, que declaravam ter sido escritos pelos apóstolos terrenos de Jesus".

As visões diferentes do cristianismo ou do Cristo foram tantas que geraram dicionários. Em Petit Léxique des hérésies chretiennes, Michel Theron cita nada menos que 232 heresias. 232 cristianismos que não vingaram. Colho na rede algumas seitas.

Antinomianismo - A idéia de que não há nenhuma obrigação de obedecer a legislação de ética ou moralidade, tal como apresentado por autoridades religiosas.

Audianismo - A crença de que Deus tem forma humana (antropomorfismo) e que se deveria comemorar a morte de Jesus durante a Páscoa judaica (quartodecimanismo).

Donatismo - Donatistas eram rigorosos, sustentando que a Igreja deveria ser uma igreja de santos, sem pecadores, e que os sacramentos, como o batismo, administrado pelos traditores (cristãos que renderam as Escrituras para as autoridades que proibiram a posse delas) eram inválidos.

Ebionismo - Seita judaica que insistiu na necessidade de seguir a lei judaica e ritos religiosos. Consideravam Jesus como o Messias, mas não como divino. Os ebionitas reverenciavam seu irmão Tiago como o chefe da Igreja de Jerusalém e rejeitaram Paulo de Tarso como um apóstata "da lei". Seu nome sugere que eles colocaram um valor especial sobre a pobreza religiosa.

Marcionismo - Um cristianismo primitivo dualista. Os marcionitas acreditavam ser Jesus Cristo o salvador enviado por Deus e o apóstolo Paulo seu chefe, mas rejeitavam a Bíblia hebraica e Javé. Para os marcionistas, o colérico Deus hebraico era uma entidade separada e menor do que o misericordioso Deus do Novo Testamento.

E por aí vai. Euquitas, joanistas, mandeístas, maniqueístas, montanistas, paulicianistas, priscilianistas, naassenos, notzrim, setianos, ofitas, valentinianistas, etc., etc., etc. Sem entrar no mérito das demais heresias, fecho totalmente com os notzrim: Jesus seria uma invenção literária (Msiha kdaba) de Paulo de Tarso. Estes cristianismos foram derrotados e jogados à famosa lata de lixo da História. Hoje, viraram verbetes de enciclopédias e só são lembrados por historiadores e estudiosos das religiões.

- Os cristãos continuam sendo o grupo religioso mais perseguido em todo o mundo – continua o cardeal-arcebispo -. “Se aqui me refiro apenas aos cristãos, não é por desconhecer que existem discriminações e violências também contra outros grupos religiosos. Há poucos dias, Silvano Maria Tomasi, observador permanente da Santa Sé na ONU, em Genebra, fez uma denúncia alarmante: mais de 100 mil cristãos têm sido assassinados anualmente em todo o mundo por razões ligadas, de alguma maneira, à sua fé”.

Quantas outras centenas de milhares de outros cristianismos a Santa Madre abafou com a perseguição de seus crentes ao longo da história? Destes mártires, dom Odilo não fala.

Teólogos não brincavam em serviço. Houve época em que a Igreja esteve a ponto de cindir-se por uma única letra. No início do século IV– conta-nos Ehrman – na época de Ário, professor cristão da Alexandria, praticamente a Igreja inteira concordava que Jesus era ele mesmo divino, mas que havia apenas um Deus. Mas como exatamente isso funcionava? Como ambos podiam ser Deus?

Ário considerava ter havido um tempo no passado distante antes do qual Cristo não existia. Ele passou a existir em determinado momento. Embora fosse divino, não era igual a Deus Pai; como era o Filho, era subordinado a Deus Pai. Eles não eram “da mesma substância”; eram “similares” em substância. O oponente mais conhecido a esta tese era Atanásio, justo aquele que seria mais tarde responsável pelo cânone do Novo Testamento. Para Atanásio, o Cristo era feito exatamente da mesma substância – homoousias, em grego - que o Pai. Nada a ver com substância similar – homoiousias. E a Igreja arriscou cindir-se por um i.

Foi quando o imperador Constantino, que havia se convertido ao cristianismo para unificar seu império fragmentado, deu-se conta que uma religião dividida não podia produzir unidade. Convocou então o Concílio de Nicéia, em 325 d. C., que optou pela posição de Atanásio. Há três pessoas em Deus. Elas são distintas umas das outras. Mas cada uma é igualmente Deus. Todas as três são seres eternos. E todas as três são feitas da mesma substância. Atanásio venceu e Ário foi excomungado.

Os hereges – todos – foram mártires à sua maneira, em virtude da atitude tirânica da facção que acabou assumindo as rédeas da Santa Madre. Isso sem falar na Inquisição, que mandou para a fogueira os cátaros, valdenses, templários, as beguinas, John Wycliffe e os lolardos, Ian Huss e os hussitas, Giordano Bruno, Joana d’Arc. Neste caso, a igreja deu-se ao luxo tanto de queimar la Pucélle, como de mais tarde reciclá-la como santa.

Oficialmente, a idéia da criação da Inquisição surgiu em 1183, quando delegados enviados pelo Papa averiguaram a crença dos cátaros de Albi, sul de França, também conhecidos como albigenses, que acreditavam na existência de um deus do Bem e outro do Mal. Cristo seria o deus do bem enviado para salvar as almas humanas e o deus criador do mundo material seria o deus do mal. Isto foi considerada uma heresia e no ano seguinte, no Concílio de Verona, foi criado o Tribunal da Inquisição.

Na verdade, a Inquisição já está latente no século IV, sob o império de Constantino, o primeiro imperador romano a converter-se ao cristianismo, que transformou a seita dissidente do judaísmo em religião oficial do Estado romano. De lá para cá, os que não quiseram sacrificar ao deus cristão e obedecer às ordens da Santa Madre, depois de flagelados, foram levados para as fogueiras, como diria Rústico. E como dom Odilo esquece.